De tantas imagens possíveis, maravilhosas, é preciso dizer: comer em viagem é essencial. Não comer para sustança, mas para sentir o lugar. Desta vez não foi tão possível. Meu corpo me traiu. De qq forma, ñ sou de comer muito, e beber ñ é minha praia. Sorry. Nada de cerveja, apesar das insistentes dicas dos guias, ou outras sugestões. Todas maravilhosas, tenho certeza, mas além das restrições que tive de me impor, ainda tenho meus gostos pessoais. Tive de conter até o meu amor pelo chocolate. Não deu certo. Tudo que comprei veio para casa.
Pois então, considerando-se os cuidados E a língua indecifrável, para não correr o risco de acabar com um arenque ou um javali (sei lá) no prato, e ñ podendo partir para a solução de sempre (um croissant de chocolate), meu café da manhã era a minha comfort food de todos os tempos, conforme doutrinado por mamãe: chá e o que quer q ñ contivesse chocolate. E que lugar mais apropriado para comer se não uma deli chamada Coffee Heaven? Tire o 'coffee' (que eu não bebo nem nunca bebi café) e deixe só o 'heaven'. Depois de passado o susto, o meu maior terror na viagem, que era chegar em Praga, tudo seria o céu. Deixem-me com a minha crença, os gurus dizem que pensamento positivo serve para resolver tudo.
E o céu se abriu. Chazinho com cheesecake. Nham. Perfect. Um bom começo de dia. Teve depois o susto do dia, para ser balanceado com o anjo da guarda. Hummmm... ñ tinha pensado nisso. Heaven. Perfeito.
Já falei do motorista de táxi ladrão? Não custa lembrar. Agora que a República Tcheca entra na zona do euro, talvez o problema diminua. Mas, de qq forma, considerando-se que passei pelo mesmo problema em Buenos Aires, no reveillon, e que acabei de ler no Jornal do Brasil que uma "turma do mal" toma conta dos arredores do Corcovado, no Rio de Janeiro, e os táxis fazem a corrida por 5 vezes o preço da bandeirada, é óbvio que o problema é universal.
Fica o problema na cota dos aborrecimentos de viagem. Que, somado à grosseria de 1 moça e 1 rapaz que vendiam tickets para a entrada do castelo de Praga, são as únicas reclamações que tenho a fazer da cidade.
Já de cara, a recepção no hostel (Dahlia Inn) foi inusitada. Fora o medo que o motorista de táxi ("give me my money, madam") me provocou, e o fato de que a rua estava completamente deserta (ñ era um local "fashion", embora muito perto de tudo - tanto da estação de trem, como do centro, e se eu gostasse, ainda tinha um cassino na esquina) e escura, a sinalização era imperceptível. Só dava para ler 'Exchange'. Por sorte, chegaram 2 hóspedes, parece que eram americanas, e havia um bilhete, supostamente para mim (o host estava em algum lugar e deixou um telefone para eu ligar ?!?!), pq eu era a única hóspede aguardada para aquele horário. Problema é q meu telefone estava sem bateria - razão do meu short tour em Viena, e de qq forma, eu me enrolaria toda para fazer uma ligação internacional, com mala no meio da rua, no escuro, nervosa, etc. etc.
As moças abriram então a porta, e ainda se ofereceram para ajudar a carregar a mala. Eram 3 ou 4 lances de escada. Ai, ai. Não deixei, claro. Só de ñ ficar na rua já foi um espetáculo. Mesmo achando estranho: e se eu fosse uma golpista? Hum. Golpe complicado, claro. Oh, well. Assim que chegamos ao andar da recepção, que era o mesmo do meu quarto, o host apareceu. Über simpático, tudo muito fofo, internet grátis, recepção nota 1000. Quase compensou o motorista ladrão. Eu digo quase pq detesto ladrões, mas o Dahlia Inn é ótimo. Apesar das escadas. E da loucura da recepção com seus bilhetinhos. Mas a distância é superconveniente, eles são muitíssimo prestativos, me ensinaram a chegar na estação de trem, que fica muito perto (aí é que me deu mais raiva do motorista de táxi). Fui lá, comprei minha passagem para Berlim, e depois fui visitar a cidade. Espetacular. Só para finalizar falando bem do hostel, eles ainda chamaram o táxi para a estação de trem, e deu certo a garantia, correu tudo bem, mesmo sem falar nada de inglês, o senhor foi honesto e a corrida foi bem barata. (Não sei se descobri pelo TripAdvisor ou pelo TripWolf, mas é uma graça e a relação custo-benefício ótima).
http://www.dahliainn.com/
MuseumsQuartier Vienna/Vienne
www.leopoldmuseum.org
Mariahilfer Strasse

Para quem duvidar, clique nas imagens... ñ entrei, já ñ sou de beber, e era de manhã... nem devia estar aberto. Mesmo que estivesse, cachaça com açúcar e limão não combinam com Viena. Né? =/
'Baudelaire disse: "A forma de uma cidade muda mais depressa, lamentavelmente, que o coração de um mortal". Ainda assim, a continuidade se firma em certas formas. A Idade Média deu à cidade, ou à maioria delas, um espaço rodeado por uma muralha, cujo vestígio subsiste mesmo quando as muralhas desapareceram. (...) Se o centro perde em energia, ganha em prestígio; é que ele permite ver num relance a cidade: sua beleza o resume. O centro sobrevive e provavelmente sobreviverá por muito tempo pelo recurso ao imaginário.'Jacques Le Goff, Por amor às cidades
Etapa seguinte, Viena. De Munique, trem. Muito fácil, nem foi necessário comprar Eurail, que era mais caro e complicado, pq tinha de reservar e já estabelecer as datas. Vai que dá zebra? O plano era chegar e comprar na hora. Penso que só hotel e avião é que não pode fazer isso. Corre-se o risco de ficar plantado.
Nos meus mínimos preparativos, apurei que outrora Viena foi cercada por essa muralha chamada Ringstrasse. Que virou uma "rua" (redonda, será? tenho de ver o Google Maps), que muda de nome algumas vezes. 'Strasse' é rua nessa língua difícil, e 'Ring' seria o mesmo que em inglês, anel? Oh, well. A estação de trem é super. A cidade ñ me deixou encantada, não sei a razão. Acho que estava nervosa. Muito pouco tempo para ver o que eu queria: Klimt (de preferência 'O Beijo' - meu favorito de todos os tempos, tenho a reprodução na minha sala), queria, se possível, ir ao túmulo de Beethoven (o único que já quis ver em minha vida, desde que assisti ao filme Immortal Beloved, com Gary Oldman, magnífico, e me fez chorar, coisa rara em filmes: com a regência da Nona Sinfonia, divina, com a carta à amada e a cena final); e provar a tal sachet torte. Parecia fácil. Ahã. Not!!!!!!!!!!!!
Os "astros" conspiraram contra: o hotel não tinha uma porcaria de um adaptador de tomadas para eu carregar minha câmera digital e, claro, pela Lei de Murphy, ela descarregou (aaaaaaahhhhhhhh, agora sei pq eu tenho pouquíssimas fotos de lá!!!!!). Fiquei com medo de chegar a Praga e o prejuízo ser duplo - conclusão: pragmatismo é a solução. Seguir a Ringstrasse, ver o que tem no caminho, achar a Ilha dos Museus, ver o que tinha Klimt, e dar-me por (meio) satisfeita. O tempo que sobrasse, achar a rua de comércio e catar uma loja que vendesse o tal adaptador.
Resumo da ópera: a Ilha dos Museus é de tirar o chapéu. Assisti a uma bela exposição no museu que escolhi (Leopold Museum) - Schiele & Klimt. Passei por um belíssimo parque - Parque da Cidade, onde há uma estátua de Strauss tocando violino linda (dizem que é super fotografada e tem de ser, porque foge àquela mesmice daqueles políticos ou mesmo daquelas esculturas de inspiração greco-romana, e tudo que evoca a música me fala ao coração...). Conheci o Danúbio (que não é azul...). Vi até um bar chamado 'Caipirinha'. Não entendi nada. E nada de sachet torte. Não achei o lugar famoso. Acabei no McDonald's (tenho um trato com minha sobrinha: ela coleciona os brindes do McLanche Feliz - como eu estava com fome e ñ tinha 1 segundo a perder antes de pegar o trem...). E achei o adaptador. Final (quase) feliz. Digamos, agridoce. Como eu gosto desses sabores, tudo bem. Diz uma amiga minha que é um pretexto para voltar. Não foi a minha intenção. Planejei exatamente para saltitar, desse no que desse. A vida dirá.
No dia 30/12/09, estava passando Antes do Amanhecer, com Ethan Hawke e Julie Delpy, que eu ainda ñ tinha visto (apesar de ter o DVD). Fui interrompida por um telefonema, mas deu para ver algumas cenas e talvez até reconhecer alguns lampejos de Viena. Acho. Adoro isso, aliás, é uma das coisas que me deixa contente em viajar e me faz sentir que "conheço" um lugar: começa com a pesquisa prévia, ler o máximo que eu posso, contextualizar. Depois chegar, andar, comer, se possível, tendo oportunidade (pois não sou extrovertida), falar com as pessoas. Por isso tb fico irritada de passar pouco tempo, ñ dá para "sentir" o lugar. E se ñ entendo a língua, pior ainda, é como se ñ conseguisse respirar direito...
Quando consigo escrever durante a viagem, as coisas vão se encaixando, consigo reproduzir o que sinto em tempo real. Depois fica mais difícil. Aí, quando retorno, conto para as pessoas o que vi, e as memórias vão se cristalizando, e adquirindo outras tonalidades, talvez até se modificando, seja se fundindo com lembranças já existentes previamente, seja se perdendo, pois ñ é possível reter tudo, ou se confundindo, ou, quem sabe, se reinventando... é aí que entram "memórias alheias". Se vejo uma foto ou assisto a um filme, certamente a qualidade, a nitidez ou o ângulo são diferentes ou melhores. A memória se sobrepõe ou completa a minha. É ao mesmo tempo um reconhecimento, uma renovação e um preenchimento de lacunas. Um aaahhh! e um oooohhhh! aqui e acolá...
Parece que tudo que espero de uma viagem é isso mesmo: aaaahhhs! e oooohhhs! O que esperar mais?