domingo, 13 de setembro de 2009

"O" BLOG

Um dia eu estava na Baratos da Ribeiro (um sebo-livraria que fica, claro, na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana), tocaiando um livro, quando entreouvi uma conversa sobre o Megazine, suplemento do jornal O Globo, que iria sair no dia seguinte. Como aboli o hábito de ler jornal (papel) diário, e as únicas curiosidades que me atraem são as escritas, comprei o jornal. Desde então não parei mais. Apesar de parecer ser mais voltado para uma faixa etária bem mais abaixo da minha, tem me mantido cativa.
Uma das razões, além das matérias - aliás, coincidência, logo de cara saiu uma ótima, sobre responsabilidade social, do jornalista Lauro Neto, que, vejam, é filho de um amigo. Tem também a coluna do João Paulo Cuenca, que não somente tem me surpreendido (a primeira vez que li não mexeu comigo), como me levou a descobrir que José Saramago tinha um blog.
Que coisa, sô! Chega a dar vergonha a gente escrever aqui, só por narcisismo mesmo, tal e qual a pesquisa disse lá dos twitterers e facebookers.

Mas humildade não é artigo de confessionário, vamos logo admitir que o homem que ganhou o Prêmio Nobel de literatura (e cujo português falado, aliás, não entendi lhufas quando esteve em SP, em 2002 ou 2003, dando uma entrevista para Juan Arias, na Livraria Cultura) - mais do que merecido - está no panteão dos deuses, enquanto euzinha aqui estou só gastando as digitais, e pronto.
Poizentão, Saramago criou o blog josesaramago.org, em setembro de 2008, e os posts foram reunidos no livro 'Caderno', publicado pela Companhia das Letras.
Nem precisaria dizer que é imperdível. Lá está o homem indignado com a crise financeira, encantado com a eleição do presidente Obama, com a escrita de Chico Buarque, e no meio do caminho vai falando de literatura, política, vida... com o detalhe, pequeno grande detalhe que o diferencia da maioria que se espalha feito praga pela Internet: ele sabe escrever.

É irresistível reproduzir o post do dia 30/10/08:

A PERGUNTA
E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?
Almeida Garrett
(1799-1854)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Dores emocionais

Em junho recebi por e-mail uma indicação para assistir no blog do programa Milênio, da GloboNews, à entrevista feita por Jorge Pontual, em Nova York, com o médico John Sarno, sobre doenças psicossomáticas (http://especiais.globonews.globo.com/milenio/?s=sarno).
Alguma resistência, déficit de atenção (YouTube não é a minha praia, gosto de ler e digitar, ser co-participante, por isso dá preguiça de escrever mais extensamente no blog, e vou para o Twitter ou Facebook - trabalho extra só pra postar foto...).
Mas, em respeito à fonte, altamente confiável (Cris), fui conferir. E "re-conferi".
Daí para recomendar, depois esperar o dia do pagamento para encomendar o livro pela Amazon, um pulo. Não dá pra ler correndo, pra fazer estatística (é que eu tenho uma fila de livros pra ler, quero ver se consigo antes de morrer, tipo '1001 livros para ler...' - o q talvez ñ seja factível, considerando-se q ñ é uma fila estática, já q eu a aumento todo mês...).

'The Divided Mind' tem 374 páginas. Ainda não cheguei à metade e já estou entre desesperada e esperançosa. Não faz gênero 'O Segredo'. Ou seja, não se trata de uma questão de fé, ou de auto-motivação, mas de constatação de uma evidência física (o sintoma, a dor), comprovada (por exames, etc.), porém, provocada pela mente. E que, em vez de ser gerada por uma neurose, como queria Freud, tem a função, na verdade, de proteger a pessoa de um sofrimento maior.
O Dr. John Sarno menciona bastante a raiva inconscientemente reprimida como causadora de todo tipo de dor (costas, pescoço, DORT, fibromialgia, joelho, cabeça, o que mais se imaginar). Mas o que assusta é que o cardápio é extenso. A certo ponto do livro, se menciona a experiência de um psicoterapeuta da equipe, Robert Paul Evans, Ph.D. (tradução livre):

"(...) Não queremos perder nossas mentes mas sim experienciar a mente e o corpo como eles são verdadeiramente - integrados como uma coisa só. (...) O propósito desses sintomas [as dores] não é ferir, mas nos distrair e assim nos proteger de experimentar o que é inconscientemente percebido como mais doloroso ou desagradável ou como aquilo que viemos a acreditar ser emoções inaceitáveis. Quando a ansiedade, medo, ira, raiva, vergonha, culpa, dor, tristeza, desgosto, alegria tida como imerecida, e outros sentimentos similares são insuportavelmente intensos, eles penetram ou ultrapassam os mecanismos de defesa comuns. Nós passamos a experienciar os sintomas físicos em vez destas emoções, porque o corpomente inconsciente os considera menos dolorosos, menos perigosos ou prejudiciais que as emoções. Isto pode ser difícil de acreditar, especialmente quando a dor é severa, mas a severidade demonstra a intensidade e o poder destes sentimentos reprimidos e o medo que eles geram no inconsciente."

Disse antes que estava entre desesperada e esperançosa? Não, estou aterrorizada. Não tem ansiolítico que dê conta dessa avalanche de sentimentos acumulados. O médico diz para escrever sobre eles, e diz que a coisa vem lá de criancinha. Há dois probleminhas aí: um, o lembrar em si, que a memória é traidora, não fosse a idade um fator a pesar, agravado pelo stress; e dois, a percepção. Será que o que eu percebo é o que realmente aconteceu? Bom, como é a minha percepção que importa, e como ele diz que esses sentimentos são atemporais (ou seja, a ferida provocada está tão aberta hoje como no dia em que ocorreu), resta saber o que me reservam os próximos capítulos.
O interessante é que o cara é contra tratamentos caros e desnecessários, que ele considera um verdadeiro crime. E como até hoje eu nunca vi nenhum trambiqueiro passar pelo Milênio, vou ler meu livrão até o finalzinho, torcendo para que a luz se faça, e, quiçá, eu possa voltar a fazer minhas caminhadas lépida e fagueira. Haja dedos para escrever aqui e nos meus cadernos. (Aliás, uma das coisas que me conquistou nele foi uma ideia que eu tinha e me deixava encafifada: porque hoje todo mundo tem LER por causa de digitação, com teclas tão levinhas de computador, e antigamente não tinha, com aquelas teclas pesadonas de máquina de escrever? Poizé.)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Livros

No Brasil se lê ou se compra (?) 0,7 livro(s)/habitante/ano. Comprar não é sinônimo de ler. O livro comprado pode ser didático, o que pode significar "obrigatório". Há ainda uma distinção entre regiões e escolaridade. Sem entrar em detalhes, ainda é incrivelmente ínfima essa relação.
Parafraseando Kiko Zambianchi, eu digo que se alguém não lê não entende, não entende se não lê.
Pode-se alegar que há outros tipos de leitura que não um livro: jornais, revistas, e atualmente, blogs, redes sociais. A mais sucinta delas, o Twitter, que tem como limitador 140 caracteres. Quase um hai-kai. Pode-se fazer maravilhas com cada uma dessas mídias. Ou horrores. Ou nada.
Pode-se tomar uma decisão questionável, como a adolescente que, em vez de ligar direto para o número de socorro quando ficou presa em um acidente, colocou um post no Twitter.
Mas para se chegar a entender ou escrever alguma coisa que valha a pena, uma história básica de leitura tem de ser percorrida. Um cardápio básico. Algo como fez o crítico David Gilmour para "educar" seu filho, desinteressado da escola: em vez da educação formal, assistir a 3 filmes por semana, escolhidos pelo pai. Não, o critério não foi determinado pela erudição. Também pensei que fosse (ainda não li o livro escrito sobre o assunto). Porque foi assim que me ensinaram. Não sei como anda a educação hoje. Mas a coisa era empurrada, e muita gente mal leu Machado de Assis, por ex., porque foi obrigada. Não sabe o que perdeu.
Mas é fato que associou-se a leitura a algo cansativo, mais uma tarefa que representaria uma prova e uma nota. No vestibular, mais um "cardápio", as famosas interpretações de textos. Nenhuma garantia de que o livro atingiu o leitor, gerou reflexão, emoção, prazer ou ódio, algum tipo de aprendizado. As famosas redações com os absurdos começaram a circular, e a Internet se tornou o meio ideal para isso. Se são inventadas ou não, desconheço. Mas que é plausível, com certeza.
Agora estão apostando no fim dos livros, dos jornais. Hoje lia 'O Caderno', de Saramago (seu blog publicado!), e achei curioso justamente ele mencionar uma feira de editoras em que as pequenas contrariavam ou faziam de tudo para contrariar essas predições.
A Bienal do Livro (http://www.bienaldolivro.com.br/) acontece no Rio de 10 a 20/09. Eu continuo insistindo em comprar livros. Tenho cartão de fidelidade da Saraiva (a Siciliano foi comprada por esta), da Cultura (amo), estou cadastrada na Fnac, na Amazon.com, na Amazon.uk, na Barnes, na Estante Virtual (http://www.bienaldolivro.com.br/) - a maior rede de sebos do Brasil, conforme apregoa. Agora também há sites onde vc pode cadastrar livros que você lê, como Shelfari e Skoob.
Nem foi por isso que eu estudei Literatura, porque acabei trabalhando num banco. Mas certamente faz sentido eu me sentir em casa dentro de uma livraria ou biblioteca. Por falar nisso, o Real Gabinete Português de Leitura é o que há (http://www.realgabinete.com.br/). No popular: pinto no lixo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Romance

37.600.000 hits para 'romance', só no Google.
490.000 hits para 'Jane Austen'. Apenas 6 livros completos em 41 anos de idade, e uma das maiores escritoras inglesas (1775-1817).
Não vou compará-la com Machado ou Pessoa - divinos, igualmente. Jane é Jane. Tive de reler Mansfield Park, e só faltava ler Northanger Abbey. Terminei nas férias do ano passado, por coincidência, em Londres. Muito apropriado (Deus permitiu, que bom).
Volta e meia releio Pride and Prejudice e Persuasion, e revejo os filmes. Perfeição absoluta. Como alguém pode escrever assim? É bom para aprender e para não inflar o ego de quem tem pretensões literárias, como eu. Só é ruim para quem acredita no amor perfeito. Pois quem pode se comparar a heroínas como Elizabeth Bennett e Anne Elliott, e heróis como Captain Wentworth e Mr. Darcy?
Quem não iria se comover com esta carta do Capitão:
"I can listen no longer in silence.  I must speak to you by such means
as are within my reach. You pierce my soul. I am half agony, half
hope. Tell me not that I am too late, that such precious feelings are
gone for ever."
E com esta fala de Anne:
All the privilege I claim for my own sex (it is not a very enviable one; you need not covet it), is that of
loving longest, when existence or when hope is gone.
As idas e vindas de Lizzy e Darcy são como a própria dança que é descrita no livro, com seus movimentos precisos, caracterizando a rigidez de Darcy, e as intervenções criativas, que marcam a presença de Lizzy. O que a princípio parece demonstrar a total incompatibilidade entre eles, vai aproximá-los. Parece a receita para um best-seller, só que ele foi escrito em 1796-97, e é o retrato de uma era e seus costumes, com originalidade, brilhantismo, espírito crítico. Nada da baixaria e promiscuidade que se espalhou por aí...

A pergunta que não se cala, porém, é: como essa mulher que, segundo sua biógrafa, nunca se casou, e pelo que se sabe, teve uma vida discreta - era filha de um pastor, além de ter limitados recursos financeiros - foi capaz de inventar os mais idolatrados ícones do romance?

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Inquietação

Não sei se sou acomodada ou aventureira - tanto gosto de ficar horas lendo, como na internet, e não é em salas de bate-papo, gosto mesmo é de saber o que está acontecendo sobre os meus assuntos de interesse e compartilhar nas minhas redes - Twitter, Facebook, e-mail, blogs... li no site Mashable (http://mashable.com/) que saiu uma pesquisa decretando que o perfil de quem usa as redes sociais é narcisista.
Uau, a gente quer é aparecer. Hum... considerando-se as minhas preferências (literatura, meio-ambiente, causas sociais), se eu conseguir aparecer, está muito bom. Odeio o Big Brother e se aquilo não é exposição negativa, eu não sei o que é.

De volta à vaca-fria (sempre quis saber o que quer dizer isso, e hoje li esta expressão em Saramago...). Terminei de ler recentemente The Art of Travel (A Arte de Viajar), de Alain de Botton. Há anos li dele Ensaios de Amor. Agora, para entender melhor a ansiedade que me bate quando eu penso em viajar, resolvi ler este.
Bem, se eu tivesse de viver de fazer crítica literária, morreria de fome. Não consigo ser sintética. A não ser quando o cara é ruim (v. Pride and Prejudice and Zombies, quando o sujeito destruiu o original de Jane Austen). Aí é fácil: em uma frase a gente diz que não presta e espalha. Em inglês tem o site Shelfari, onde você pode montar sua estante de livros. Bem legal.
Viajei, como o cara que escreveu um livro sobre a viagem noturna que ele fez em seu quarto. Não, ele não era doido, inclusive ele viajou convencionalmente também. Mas é uma questão de observar. Alguém se preocupa em realmente ver por onde anda no seu caminho rotineiro? Como aquela cena de Notting Hill, onde Hugh Grant está andando, e as estações passam, até a roupa muda para acompanhar o tempo, mas o local é o mesmo, porque ele está caminhando de casa até o trabalho, e o trajeto não muda. Mas não é verdade, a cada dia, cada momento é diferente. Perguntem a um budista.
Nós nos deixamos levar pela rotina, todo dia pensamos que é tudo sempre igual, e assim matamos primeiro o coração, depois o cérebro. Quem tem dinheiro viaja - fisicamente. Vai a Búzios, São Paulo, Garopaba, Nova York, Roma. Tem gente, como eu vi outro dia, que entra e sai de uma catedral que é Patrimônio Cultural da Humanidade só pra dizer que esteve lá, tira a foto e ainda conta isso. Tem gente que visita 20 cidades em 20 dias.
É isso? Espero que não. Botton cita Nietzsche, que leu De Maistre (o cara que escreveu sobre seu quarto):
Quando observamos como algumas pessoas sabem como lidar com suas experiências - suas insignificantes experiências do dia-a-dia - de forma que elas se tornem um solo arável que dê frutos três vezes ao ano, enquanto outros - e quantos eles são! - são direcionados por entre as ondas do destino, as múltiplas correntes dos tempos e das nações, e no entanto, permanecem no topo, pulando como uma rolha, então somos tentados a dividir a humanidade entre uma minoria (muito mínima) que sabe como fazer muito de pouco, e uma maioria que faz pouco de muito.

Seguidores

MINHA PONTE

MINHA PONTE
Brooklyn Bridge