Fico pensando nas razões que levam as pessoas a fazerem "turismo" nos cemitérios. Admiração, respeito, morbidez, ou bizarrice (se é que esta é uma palavra dicionarizada)? De minha parte, só tinha ido a cemitério para os fins práticos, ou seja, enterros. A única vez em que quis ir visitar um túmulo foi em Viena - o de Beethoven. Não tive tempo. Fala-se muito em Père Lachaise - acabei de descobrir que Abelardo e Heloísa estão enterrados lá, por ex.. Arquitetura religiosa, história, ok, já entendi. E também acabei de lembrar duas coisas: uma, que só não entrei no cemitério do antigo gueto judaico em Praga porque estava fechado - há túmulos que datam da época medieval; e outra, em várias igrejas que visitei, tanto há cemitérios no próprio terreno contíguo, como há corpos enterrados em nichos dentro da igreja, sendo alguns de santos (e em alguns caso, apenas partes, como na Igreja da Medalha Milagrosa, na Rue du Bac, em Paris).
Portanto, voltando a fita: porque se faz turismo especificamente em cemitérios?
Bom, eu não queria. O tempo era curtíssimo, e eu queria era visitar um museu e uma igreja, como sempre quero, em qualquer lugar aonde vou (mais uma livraria). A igreja escolhida era a de Nossa Senhora del Pilar, numa avenida chamada Junin, número 1892 - peguei o endereço e anotei. Saímos do hotel, descobrimos a dita cuja, e fomos andando. E andamos, andamos e nada. Até que a rua acabou. Minha inteligente filha disse que eu tinha anotado errado. Possível, vivo fazendo esse tipo de coisa. Já estava desistindo, pois estávamos num lugar que nada tinha a ver com nada (totalmente residencial), quando resolvemos seguir, e percebemos que a rua continuava, mas era como se fosse um S quebrado. Como diria Obelix, esses portenhos são todos loucos.
Continuamos, então, e chegamos... à Recoleta! Em frente ao cemitério! É, e a igreja fica ao lado. E a filha disse que se soubesse que era ali tinha vindo pelo outro lado. Humpf. Eu estava certa, não tinha anotado nada errado. Bom, já que estávamos ali, empurrei-a para o cemitério. Não, sem más intenções, curiosidade, apenas. Ela acabou tirando mais fotos do que eu. O dito cujo está bem mal cuidado, os jazigos estão quebrados, empoeirados, mas há alguns quadros dentro belíssimos.
Algumas esculturas muito interessantes, uma outra composição estranha: uma cena cristã com uma menorah, uma estátua de uma adolescente muito amada por seu pai (muito triste o texto de homenagem), e outras. Achei um pouco diferente dos cemitérios que conheço aqui - o S. João Batista, em Botafogo, e o Caju, sei lá. Talvez porque lá eu tenha andado com outro olhar, não estava acompanhando um recém-morto, não havia uma tristeza ainda pairando, insistindo em querer se apegar... tudo que vimos foi nostalgia, resquícios de algo que é só lembrança.
Para fechar, fui procurar o jazigo de Evita, que tanto estardalhaço fez. Lembro-me de ter lido sua história quando era bem nova e ter ficado comovida. Não ficou mais nada. Não há nenhuma sinalização. A dica é seguir os turistas. Bingo! Mas esperava mais da "mãe dos pobres", não era assim que chamavam?, sei lá. O tempo passa, não é? Espero que isso seja bom sinal, mas não acredito muito não. As pessoas adoram um salvador da pátria, alguém que lhes diga o que fazer, para não terem de pensar - e, talvez, quem sabe, poderem depois dizer que não são responsáveis por seus atos.
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